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Monthly Archives: Agosto 2009
Contrarreformas ameaçam o País
do Estadão - artigo Gustavo Loyola
A resiliência da economia brasileira à presente crise econômica internacional se deve, em ampla medida, aos avanços institucionais observados nos últimos 15 anos no Brasil. Em que pese a unanimidade desse diagnóstico, o segundo mandato do presidente Lula tem-se caracterizado por uma sucessão de contrarreformas que, pouco a pouco, minam as instituições econômicas laboriosamente construídas a partir do início dos anos 1990.
Quando Lula se tornou forte candidato à sucessão presidencial, em 2002, o medo dos agentes econômicos era o de ruptura com as políticas econômicas de FHC. Felizmente, o pânico do período eleitoral se mostrou injustificado, já que o novo presidente preferiu sabiamente ficar do lado certo, preservando a responsabilidade macroeconômica.
Ademais, no quadriênio inicial do governo Lula, alguns avanços institucionais importantes ocorreram no bojo das reformas microeconômicas patrocinadas pelo ministro Palocci e sua equipe. A expansão forte do crédito bancário nos anos subsequentes, por exemplo, deveu-se muito a tais esforços.
Porém, no segundo mandato, os avanços institucionais se tornaram parcos. Ao contrário, o que se tem verificado é que, pela ação ou omissão do governo, iniciativas cada vez mais numerosas vão corroendo o edifício institucional que permitiu à economia brasileira deixar para trás a década perdida da hiperinflação e do baixo crescimento.
Vivemos, hoje, a era das contrarreformas. Há a contrarreforma fiscal, a contrarreforma previdenciária, a contrarreforma do Estado, a contrarreforma trabalhista e até, para alguns, a contrarreforma ortográfica, que nos obriga a abusar da consoante dupla nesse parágrafo.
Com relação à Previdência Social, o recente acordo com os sindicalistas que enfraquece o chamado “fator previdenciário” e atrela o reajuste dos benefícios à variação do PIB é desastre de grandes proporções, pois agrava ainda mais o déficit previdenciário ao longo dos próximos anos. O desempenho um pouco melhor das receitas previdenciárias nos últimos anos parece ter ofuscado a realidade de que as contas da Previdência continuam no vermelho e que há uma tendência estrutural de aumento dos desequilíbrios, em razão principalmente da dinâmica demográfica.
Contudo, o risco de retrocesso não se restringe à Previdência. No campo trabalhista há iniciativas para aumentar ainda mais os custos de contratação formal de mão de obra. Com o beneplácito do governo, o Congresso se prepara para votar a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que reduz a jornada de trabalho para 40 horas semanais, como se isso tivesse o condão de criar mais empregos. Despreza-se a experiência recente da França que indica que a diminuição da jornada de trabalho não contribuiu para a redução do desemprego.
Por sua vez, a expansão forte dos gastos de custeio do governo, notadamente com a folha de pagamento de servidores, indica agravamento da rigidez do orçamento público e perda de espaço para redução da carga tributária e/ou aumento do investimento público no País. Com isso, as condições para a atividade empresarial podem piorar, já que a competitividade da produção nacional estará crescentemente comprometida pelo trinômio: juros altos, tributação elevada e infraestrutura precária.
Não fossem suficientes os problemas acima, a tentativa de recriação da CPMF, disfarçada de contribuição para a área da saúde, demonstra que há muita gente que ainda acha a carga tributária pequena, o que é de uma absoluta falta de senso de medida. O mais estranho, porém, é que o governo tacitamente apoie a ideia de recriar um tributo de péssima qualidade que incide em cascata sobre as operações financeiras.
Tais retrocessos potenciais ou efetivos, infelizmente, não são o bastante. Percebe-se que está em marcha uma redefinição para pior do papel do Estado na economia, seja por meio da criação, disfarçada ou aberta, de novas empresas estatais, seja pelo aumento da intervenção regulatória nos mercados, ao mesmo tempo que a autonomia das agências reguladoras é flagrantemente reduzida, em nome de um pretenso “controle social”. Tais iniciativas vão desde o modelo de exploração do petróleo no pré-sal – de viés notoriamente intervencionista – até a intenção de reativar a defunta Telebrás, como se a privatização da telefonia não tivesse trazido benefício nenhum ao País.
Em resumo, o rol de contrarreformas iniciadas, incentivadas ou toleradas pelo governo Lula é extenso. Se nada for feito, o Brasil encontrará mais à frente uma nova “década perdida” em termos de crescimento e de estabilidade econômica. A experiência brasileira e de outros países, inclusive da vizinha Argentina, revela claramente os riscos da excessiva intervenção estatal e dos desequilíbrios fiscais, duas pragas crônicas dos países da América Latina. Por isso, é urgentemente necessário interromper essa marcha acelerada rumo ao passado que tem caracterizado as últimas ações e omissões da administração Lula.
Gustavo Loyola, doutor em Economia pela EPGE/FGV, sócio-diretor da Tendências Consultoria Integrada, em São Paulo, foi presidente do Banco Central
O peso do leão
d Estadão -Sônia Racy
Em meio à polêmica sobre a criação de uma nova CPMF para a saúde – a CSS -, interessante paper do ex-BC Alexandre Schwartsman prega que é a taxação crescente, característica da economia brasileira, a responsável pela performance fraca do crescimento do nosso PIB potencial.
O que é isto? É a capacidade da economia de crescer sem gerar inflação. O que o imposto para a saúde mina, como se vê, é a saúde do crescimento.
Temer diz que será difícil criar tributo para financiar saúde
Não pensem que podemos relaxar só porque eles estão em dúvida. Com este governo, em dúvida, cria-se um novo imposto.
O presidente da Câmara, Michel Temer, avaliou nesta quarta-feira que a criação da Contribuição Social para Saúde (CSS) enfrentará muita resistência na Casa.
Acho difícil votar aumento de imposto. Há grande rejeição, grande resistência a qualquer hipótese de aumento de imposto, embora eu reconheça que a saúde está precisando muito de verbas dessa natureza, afirmou Temer, ao ser questionado sobre a decisão do DEM de obstruir as votações na Câmara se a proposta for colocada em pauta.
O líder do governo, deputado Henrique Fontana (PT-RS), defendeu mais recursos para a saúde. Ele afirmou que a queda na arrecadação por conta da crise global e o aumento das despesas, incluindo as medidas adotadas para combater a nova gripe, tornam necessária a aprovação do novo tributo. Fontana disse ainda que prefeitos de partidos de oposição concordariam com a CSS.
A CSS está sendo tratada de forma suprapartidária com prefeitos, governadores, com secretários, para resolver os problemas das necessidades de saúde da população. Se nós transformarmos esse assunto numa guerra entre governo e oposição, ele não prospera, disse.
Oposição
O presidente do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ), reafirmou que a solução para saúde não é aumentar impostos. O problema no Brasil é de gestão, é de desvio, é de má utilização do recurso público, não é de aumentar impostos ou criar novos impostos. A nossa preocupação é ir para o debate e mostrar que há desperdício, disse.
O líder do PSDB, José Aníbal, chamou a CSS de contribuição sem sentido e defendeu que o governo resolva o problema da saúde remanejando recursos do Orçamento.
A CSS está prevista em um projeto de lei complementar que chegou a ser votado no ano passado. Falta apenas um destaque para que a votação seja concluída. Em reunião na semana passada com o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, a bancada do PMDB decidiu apoiar a criação do novo imposto.
PMDB cobra apoio de Lula à aprovação de nova CPMF
da Folha
Partido não quer arcar sozinho com ônus político de criar tributo perto das eleições
Parlamentares da oposição iniciam movimentação contrária à chamada CSS e obstruíram as votações nas comissões da Câmara
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O PMDB, maior partido no Congresso, negocia com o presidente Lula para que o governo apresente formalmente um pedido de prioridade à votação da nova CPMF, batizada de CSS (Contribuição Social para a Saúde).
O partido, que fechou questão a favor da criação da CSS, não quer assumir sozinho o ônus de aprovar aumento de tributo na véspera das eleições.
Por isso, o discurso do presidente da Câmara e presidente licenciado do PMDB, deputado Michel Temer (PMDB-SP), é que considera difícil a aprovação da CSS sem consenso.
“Acho difícil votar um novo imposto. Há muita resistência dos deputados”, disse ontem.
No dia anterior, porém, em encontro com Lula em São Paulo, tanto ele quanto o líder da sigla na Câmara, deputado Henrique Eduardo Alves (RN), pediram para que o presidente leve o assunto à próxima reunião do Conselho Político, prevista para a semana que vem.
“O Lula tem que mobilizar a base, queremos ouvir [a posição favorável] do governo. Mas vamos votar isso neste ano”, afirmou Alves.
O novo imposto seria de 0,1% sobre as movimentações financeiras. Está pronto para ser votado na Câmara desde o ano passado junto com o projeto que regulamenta a emenda 29, destinando mais recursos para a saúde. Se for aprovada pela Câmara, a CSS terá de passar pelo crivo do Senado, onde o governo terá mais dificuldades.
O PT também concorda com a CSS, mas ressalta que quer o apoio da oposição para colocar o projeto em pauta.
Secretários de saúde também trabalham para convencer a oposição. “Estamos lutando para votar de qualquer forma”, disse o presidente do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde, Antônio Carlos Figueiredo Nardi, após reunião de secretários em Brasília.
Do outro lado, a oposição deu início ontem a movimentações contrárias ao novo imposto.
Para impedir a votação do projeto, DEM e PSDB obstruíram as votações nas comissões da Câmara. “O Brasil não aguenta mais impostos”, afirmou o presidente do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ).
Nova CPMF para a gastança
do Estadão – Editorial
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Saúde é pretexto. O presidente Lula quer mesmo é arrecadar mais dinheiro para sustentar a gastança eleitoral. Será essa a destinação principal da nova CPMF, se o Congresso aprovar a recriação desse tributo, agora batizado como Contribuição Social para a Saúde (CSS). O governo federal não precisa de mais impostos para financiar os programas sociais mais importantes. Recursos não faltam. Só falta usá-los corretamente, evitando esbanjamentos e reorientando as despesas. Mas essa não é a especialidade mais aplaudida no Palácio do Planalto. Se fosse, o governo teria investido muito mais, em vez de elevar as despesas de custeio, como resposta à crise econômica iniciada há cerca de um ano.
(…)
Quase todos os países – desenvolvidos e em desenvolvimento – foram afetados pela recessão. O impacto foi menor em vários emergentes, mas nenhum ficou livre de problemas. A maior parte desses países tem carga tributária menor que a brasileira, alguns têm exibido um desempenho pior que o do Brasil, e nem por isso deverão adotar novos impostos. Não precisarão disso porque seus governos, pelo menos aqueles conhecidos pela boa administração, costumam tratar de outra forma os problemas de alocação de recursos.
O presidente Lula nunca parou de se queixar da extinção da CPMF. Não tomou a iniciativa formal de propor a sua recriação, deixando o trabalho para os parlamentares aliados. Para que deveria assumir a responsabilidade por essa medida tão antipática às pessoas sensatas e informadas? Não se responsabilizou, mas sempre agiu a favor da instituição da CSS.
(…)
Mas é preciso barrar já na Câmara dos Deputados esse novo assalto ao contribuinte. A arrecadação federal cresceu em 2008, apesar da extinção da CPMF, e voltará a crescer com a recuperação da economia. A CSS terá o mesmo fato gerador do imposto do cheque, a mera movimentação de recursos. Isso é uma aberração em termos tributários. Incidirá em cascata – outra aberração.
Mas será, acima de tudo, mais um fator de alimentação da gastança. Nada impede o governo e seus aliados de atribuir mais dinheiro à saúde, à educação e aos objetivos considerados mais nobres, quando se elabora o orçamento. É uma questão de competência administrativa, de decência política e de respeito aos cidadãos. A arrecadação de um tributo a mais, mesmo carimbado para a saúde, no fim das contas, liberará verbas para a gastança e para a lambança. O Brasil trabalhador e produtivo apenas perderá com isso. Ganharão os habituais cupins do Tesouro. (leia na íntegra)

